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'Não vale uma fisgada dessa dor

  • Aug. 13th, 2009 at 10:16 PM

É lógico que um sentimento não se acaba numa tarde, mas ele pode ser camuflado e após uma decepção você arranja forças pra colocar ele atrás da porta e seguir em frente. Uma decepção pode fazer maravilhas, pode dar vontade de sair, de vestir uma roupa legal, sair com os amigos, conhecer novas pessoas, correr na esteira, ficar gostosa, enfim, pode mudar o rumo das coisas.

O coração quebrado de hoje de manhã foi colado, um serviço mal feito, ainda há fissuras, mas o tempo as tampará. Quem não deu valor, não respeitou, não considerou a pessoa que sou, a namorada que fui e os três anos de amor não merece que ele fique em pedaços nem por mais um minuto.

A esteira está me esperando, os amigos gelando a cerveja, as amigas se arrumando e eu aqui guardando o sentimento, tentado fazer ele se calar, com dor, com certeza, mas com o lado racional aflorado. Sim, o lado racional. Eu que nunca fui desse tipo de coisa, sempre impulsiva, chorona, minhas lágrimas costumam saltar como kamikazes... Hoje não, hoje de tarde não, eu gritei, xinguei, falei tudo o que tinha que falar e estou com a alma lavada, pronta pra enfrentar aqueles que irão apontar o dedo e abraçar aqueles que sabem o quão magoada estou.

Esconder um sentimento não quer dizer que não estou ferida, sangrando, dolorida, quer dizer que estou cansada de chorar, de sofrer, de amar demais e ser decepcionada.

É aquela música, aquela que não sai da minha cabeça, aquela que esteve comigo nas maiores decepções:

"De repente cai o nível e eu me sinto uma imbecil...
Cutucando, relembrando, reabrindo a mesma velha ferida..."


E assim a gente vai, caindo e levantando, sangrando e se curando, chorando e secando as lágrimas... E, hoje, no meu caso, se impressionando como força e decepção formam um belo casal.


Abstinência

  • Aug. 13th, 2009 at 11:46 AM

Com certeza a parte mais difícil do término de um relacionamento longo, lindo e pacífico é esse tal do costume. A gente se acostuma a ligar, a querer saber, a planejar, a sonhar, a dar boa noite, contar pesadelos, sonhos, desejos... O mais difícil é fazer com que outra coisa preencha esse vazio imenso que chega a fazer eco.

Penso em ser amiga, quero ser amiga, mas ele sabe, eu sei, que é mais que isso. A gente não acabou ainda. Ainda ferve, ainda existe chama que arde sem ver... E aí é a pior parte da história, terminar 'pacificamente'. Entre aspas porque eu não deixei que fosse pacífico, eu lutei e não me arrependo. Dei o primeiro passo, mas recuei, me arrependi, chorei, gritei, implorei e não me envergonho. Eu não desisti.

Uns dizem que um dia ainda voltaremos, é só uma fase difícil, existencial. Eu prefiro pensar que vou superar o agora, já está difícil aguentar a falta e não quero pensar que esse vazio vai ser preenchido novamente por ele. Porque se não for vou sofrer triplamente.

A falta do amigo, do melhor amigo, é a parte mais dolorida. Não são apenas os beijos, abraços, cheiros, passeios, viagens, fotos, carinho, palavras, que fazem falta, é o diálogo, a conversa, a cumplicidade, a amizade propriamente dita. Eu choro, não nego. Eu ainda ligo, não imploro mais. Quero ser amiga, não sei se consigo.

Eu sempre fui do lema: não se pode ser amiga de ex namorado. Nesse caso estou abrindo uma exceção. É difícil da noite pro dia você parar de falar com uma das pessoas que mais te apoiou nesses últimos três anos... Que estava ali quando você escolheu a Universidade para a qual iria, que estava ali quando sua cachorra - de 16 anos - morreu, que estava ali quando esteve doente, quando passou mal no Carnaval e ele ficou sentado por toda a madrugada segurando sua mão e depois de dormir apenas algumas horas foi te ver e deitar com você pra não ficar sozinha.

É difícil não conversar sobre suas expectativas, o concurso de estágio, a nova calça, o filme de quarta-feira... A prova da faculdade, o desabafo sobre as injustiças que vejo, o teste do Detran, as expectativas dele, e a pergunta 'como foi seu dia?'.

E difícil, mas eu sei que aos poucos esses sintomas de abstinência vão passar. Eu estive viciada no amor e não me culpem se não sei como preencher esse vazio, por enquanto. Não me culpem por eu querer apenas conversar e sentir ele ali ainda, mesmo que daqui pra frente não tão ao meu lado quanto eu gostaria. Não me culpem se estou ainda com lágrimas nos olhos e um sorriso pequeno no rosto. A verdade é que me sinto bem ao conversar com ele e não quero que isso acabe.

A vocês

  • Aug. 11th, 2009 at 2:32 PM

Se não fosse por vocês eu ainda estaria chorando horas a fio, se não fosse pelas visitas, telefonemas, palavras de conforto, carinho, compreensão, colo, abraço... Se não fosse por vocês eu ainda estaria perdida, numa cama grande, espremendo os travesseiros e o coração. Sangrando água e sal e clamando pela volta de quem talvez não volte.

E eu fico tão feliz, agora que o sol saiu, pois tenho vocês, meus amigos, minha família, vocês, que não são poucos, mostraram-me que é possível sim se apoiar e se segurar pra não cair. E eu não caí. Vocês me deram os braços, as palavras, o silêncio, me deram o afago, a proteção, a cama elástica se eu fosse pular. Alguns me seguraram, outros dormiram de mãos dadas comigo, me levaram pra tomar sorvete e suco de açaí, compraram chocolates e hoje vão me levar pra rir, cantar, dançar...

Vocês estão aqui e sinto vocês mesmo quando sozinha.

Hoje eu consigo ficar sozinha sem chorar, ainda dói, não cicatrizou, mas minha alta-estima está lá em cima por causa de vocês. "Você é linda, você é inteligente, engraçada, absoluta" hahaha... Obrigada.

Daqui a pouco, muitos de vocês eu vou encontrar sentados numa mesa de um lugar animado e vão me contar piadas e vou gargalhar tanto que minha barriga doerá, vocês me enviaram músicas, poemas, cartas, e-mails... Vocês seguraram minha mão, deixaram eu chorar e molhar suas roupas, me levantaram do chão frio, apagaram minha luz quando consegui dormir.

Vocês, únicos, minha base. Vocês que me abraçaram e me abraçarão até essa ferida fechar. Estão programando feriados, Natal, Ano Novo, Carnaval... Não vão me deixar sozinha, colocarão a música o mais alto possível pra eu não ouvir o trincar do meu coração e trarão band-aids antes de sairmos de casa.

E principalmente você, irmão, que é força da minha vida, segura minha mão e não larga, você que me dá proteção, conforto e apoio. Você que mesmo longe está perto, junto com todos vocês.

Pra vocês o meu MUITO OBRIGADA.

'Tell me that you need me'

  • Aug. 10th, 2009 at 2:40 PM

A vontade de escrever é tanta que mal me aguento, mas não sei como transformar dor em palavras. A vontade de chorar é tamanha que não me suporto, choro e suplico para parar.

É difícil acreditar que acabou, que virou história, que não posso mais ligar no meio da tarde e contar o pensamento mais bobo que me veio à cabeça ou no meio da noite e contar o pesadelo, nem a música que estou ouvindo ou a matéria que estou estudando, nem o pássaro que pousou na minha janela, nem a dor que me sufoca e me faz triste. É tão complicado a gente achar que vai controlar com sabedoria nossos sentimentos quando a hora chegar, mas não, a gente cai em queda livre e se quebra no chão frio e úmido de um banheiro.

Se você soubesse como me faz falta o seu olhar verde e carinhoso, sua pintinha amarela no meio do olho, seu cheiro cítrico, seu abraço acolhedor, sua gargalhada única e sua mania de me chamar de 'bobinha'. Faz falta, dói, corrói, mas é preciso aguentar. Não há alternativa.

Eu poderia correr até aí e te jogar na parede e mostrar o quanto eu te amo, eu poderia gritar tanto que você, há mais de 200km, ouviria, eu poderia chorar até você voltar, mas não adiantaria. Nosso pacto eu tenho que cumprir e aceitar. Você merece o que me pediu, mas eu não mereço tanta dor.

Não se assuste com esse texto, é minha forma de espantar os fantasmas do meu travesseiro, as formigas que andam em meu estômago e a agulha que espeta minha cabeça pedindo pra eu não desistir, e não vou. Só a gente se entende e se desentende, não adianta negar. Não adianta clamar, nem cair, nem chorar, mas é tudo o que sinto vontade de fazer.

Ó menina boba, bobinha, com coração demais pra doer, com esperanças talvez inúteis e correndo o risco de ficar assim, durante um bom tempo, durante agosto, setembro, durante horas a fio... E não pensar se torna um desafio, e não escrever aquela imensa carta e entregar o seu presente de Natal também...

É difícil. Atravessar agosto vai dar desgosto, mas é preciso chorar menos, rezar mais, ir levando e, no meu caso, cantar, pois aí, talvez, a tristeza fica pra lá.



"Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu - sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados. Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques - tudo isso ajuda a atravessar agosto."

Caio Fernando Abreu

Paraíso sem cor

  • Aug. 5th, 2009 at 1:27 PM

Deixei as lantejoulas de lado e fui brincar de ser opaca. Minha saia rodada de tule não me serve mais e eu não me importo porque tenho a fantasia de gente-grande pra vestir. Meu cabelo já não é natural, meus olhos não são mais sonhadores e peco pelo excesso de realismo. Dá vontade de dizer ao mundo pra parar de querer idealizar e simplesmente viver.

Ademais, os degraus da vida são muito altos para essas pernas, os sons são baixos demais para quem não quer ouvir, e dormir sozinha deixa de ser libertador e começa a ser um tormento. Respiração alheia faz bem ao coração. Principalmente quando os movimentos são simultâneos, as falas inconscientes se completam e, quando o pesadelo bate à porta, você está com seu manto protetor. Acordo e ele surge. E eu corro para resgatar as lantejoulas, começo a idealizar um universo de possibilidades e me emociono ao sentir o romantismo.

Ele acorda com o meu sorriso e implora para deixar a preguiça reinar. Eu cedo aos seus pedidos, como sempre. Olho no fundo daquele fundo verde e mal posso esperar para respirarmos novamente, no mesmo ritmo... Os olhos se enchem de lágrima e eu não sinto falta da fantasia já tirada. Arranco minhas preocupações já costuradas e deixo buraquinhos, que logo vão fechar. Logo, logo...

Pisco. E ele não some. Com certeza não é sonho, não é imaginação. Mas me lembro que ainda é quarta-feira e ele só chega daqui dois dias! Pisco, ele desaparece. Volto a despir-me de lantejoulas e preparo-me para aquela fisgada no peito que já se tornou 'de casa'. Dói, mas ser opaca também é viver, não?

Quando parei por um minuto...

  • Aug. 4th, 2009 at 3:20 PM

... percebi que me faltava um braço, uma perna, um sentimento, um não-sei-o-quê!? Faltou-me a esperança de reviver cada dia na memória e lembrar o quão feliz eu era por ser despreocupada. Ai, preocupação... por que me invade assim, sem pedir licença, sem autorização ou alvará? Como pode se alojar em minha mente, fazer meus olhos saltarem de medo e sangrarem água e sal? Ai, solidão... que acompanha essa terrível preocupação e me rasga de dentro pra fora como um zíper ao avesso, um sentimento fechado, um coração aberto demais mostrando o que não deveria.

Entro em casa, na espera de sentar e despejar toda minha dor na capa rosa e macia, olho em volta e a minha vida, por um instante, gira em torno do balanço da cortina, pendendo para o meu lado racional de viver sem ilusão. A ilusão da despreocupação. Coisa corriqueira.

Sem importância são meus dias hoje, mas essenciais para o futuro, o amanhã!
Quem diz que viver o hoje é suficiente não possui expectativas, e eu mergulho nas minhas como uma criança na piscina de mil litros, achando que aquela sim é a maior piscina do mundo.

São minhas expectativas que tento compartilhar com alguém como você que se mexem pra lá e pra cá, como um pêndulo morto querendo sair daquele vai-e-vem e choacalhar sem pudor. Ô diacho de
caminho de pedras, de saudade, de dor. Dor indolor, sabe? Aquela que corrói, se expande, amortece e mata. Dor que machuca a mente e que de tanto pensar fiz buracos fundos em mim, rasguei os jornais que deixei na entrada, joguei um copo pela janela e me fiz de vítima diante de quem feri.

Sai, essa é sua sina. Viver sangrando expectativas e amar criando mares profundos de planos. Vem que minha semana é esperar por aquele abraço, aquele cheiro, aquele conforto de quem sabe o que diz e não repara nas minhas minhocas penduradas pelos buracos da minha mente e sente que preenche o que nunca será completo.

Quando parei por um minuto.


Chá de Tharântulas

  • Dec. 7th, 2007 at 6:17 PM

Elas tem quase tudo em comum, desde o sarcasmo e bom humor até a vontade incontrolável por tudo o que é doce e colorido.
Ficou com vontade?
Então sirva-se:
www.chadetharantulas.blogspot.com



Orkutnídeos:


Perfil das Thântulas:
http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=7162983067562963388

A comunidade: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=42596908


Nossa picada transcende ;)
Beijos, amores!!!
Tem texto meu lá de hoje!
:**

Chame o síndico!

  • Dec. 3rd, 2007 at 10:29 PM

A lantejoula pulou suicidamente do vestido.
A luminária verde saltou na cama depois de um sono profundo no canto da parede.
O edredom fez um ruído de desesperero sonâmbulo.
Os cadernos se abriram num ato impulsivo. 
O telefone ficou mudo.
O apartamento está excentricamente trêmulo (e se auto limpou). 
As unhas queriam ser lixadas, uniformemente, com a faca da cozinha.
O tapete enrugou e chamou os sapatos para junto dele.
O computador abriu essa página para não morrer no soco.
O Suflair foi devorado em um minuto.
O espelho embaçou.
O cabelo foi picotado, as pontas duplas já eram. 
A boca está seca e os dentes cerrados (as mandíbulas nem reclamam).
A janta não esfriou mesmo por meia hora parada no fogão.
Escondi qualquer instrumento mortífero e estou, nesse exato momento, guardando meus pensamento canibais e animalescos dentro da caixa preta que fica em cima do armário alto.
Tudo, agora, se calou.
Corra. 
Grite.
Vá rezar para os antepassados.
Eu estou na ira.
Estou na fúria.
Estou com o meu avesso à mostra. 




Ciúme. 

"Não diga que a canção está perdida..."

  • Dec. 1st, 2007 at 12:00 AM

(desabafo)

Hoje eu vi uma pintura feita por uma menina estrangeira, de 12 anos, e nela estava você, seu rosto, seu sorriso, seu nariz. Onde você estava quando eu apresentei pra família meu namorado? Ou quando peguei o carro do vô pela primeira vez? Onde você estava quando escutei Raul Seixas e chorei rindo? Ou quando deitei na rede e chupei uvas sozinha? Diga-me, onde? Quando eu fiz meu primeiro pavê na casa da vó? Meu trote do vestibular, na minha crisma, nos meus 15 anos... 
Depois de quase oito anos ainda choro de saudade de quando você me levava pra tomar sorvete antes de sair com sua noiva, quando você buzinava pras pessoas na rua para me fazer rir como uma criança maldosa, quando você colocava aquela música cheia de palavrões e era xingado por todos da casa, porque não se pode ensinar isso a uma criança de 6 anos. Você me deu de presente a minha melhor amiga, o amor da minha vida, a minha neguinha. Isso foi no Natal e você disse: é sua. Esse ano será meu primeiro Natal sem ela, ela foi minha por 16 anos e será para sempre. Onde você estava quando ela morreu e me fez sangrar? 
...
Ainda choro, porque além de tudo, o vô ainda vai, todos os dias, limpar sua pousada, e coloca flores e tira o pó. Como eu chorei quando você se foi. Como eu choro por ter esperado tanto meus 18 anos para ir à balada com você e você não estar. Só queria dizer, depois de todo esse choro, que eu amo você. E que eu me orgulho por ter levado sua aliança de casamento ao altar, mesmo tendo odiado o vestido que usei. Onde quer que esteja, que você, de alguma forma, seja a reprodução real ou celestial dessa pintura, e que você esteja segurando uma luz deitado nas nuvens (comendo uvas e cantando Raul).

Daqui umas décadas, eu buzino pra você, Tio.
 

quadro: http://www.artakiane.com/paintings/age_12/age12_08.htm#
(mini imagem desse texto.)

SOS

  • Nov. 26th, 2007 at 11:46 PM

Quero viver, ao menos um dia, de cheiro e de canção. Ficar de olhos fechados e sentir o aroma de morango misturado ao seu perfume cítrico; ouvir sua voz embaralhando palavras nos meus cabelos e fazendo rodopios e arrepios em meu pescoço. A saudade sim é dor que não se sente, que desatina sem doer. 
Não desejo ter mais insônias pensando num modo de me sentir menos sozinha, mesmo dentro do coração de algumas pessoas. Não anseio mais pela liberdade solitária de quem canta para ninguém e quem não sente o cheiro de alguém. Não. A repulsa dentro de mim ainda pulsa em ritmo de quatro tempos e pula para fora como lágrimas selvagens e pesadas, a água salgada da menina dos olhos, da menina de dentro, da mulher de fora.
Vem correndo. Manda-me correr para pular em seus braços e você, transbordando saudade, me girar como quem gira uma criança após a volta da viagem. Tira-me dessa ditatura da beleza ideal, do peso ideal, do cabelo ideal, pois os cremes e salões de beleza são mentirosos, nada é por muito tempo, nem eu.
As rugas aqui dentro estão aparecendo, sinto mais calor que antes, os lábios começaram a se abrir por necessidade, é a seca. A falta de um ritmo e de um cheiro é tão intensa que até o chuvisco parece menos sozinho. Um pingo longe do outro, mas não tão longe quanto eu e você, quanto eu e eles, quanto eu e mim.
As lágrimas secam no caminho, pelas rachaduras violentamente sofridas ao longo do final de semana. Gostaria de ouvir o som da sua voz mais de perto e não sentir a minha tão ao longe. Vem. Diz-me quanto tempo faz que não abro o coração para cantar e sentir. Eu sei, não faz muito tempo, afinal, nem faz tanto tempo assim que nos vimos... Mas a falta é seca, é deserto, é sertão. Grande sertão discreto, tão vazio de palavras e sons. Mudo e salgado. 
Ao mesmo tempo caminho cantando, repetindo a canção que lhe enviei hoje para abrir o sorriso que eu não consegui, cheiro de menta, ruídos românticos, tudo que desejo para os próximos dias.

Avante, menina!

  • Nov. 22nd, 2007 at 1:00 AM

 Ninguém esperava um texto a essa hora, na verdade, nem eu. Escrever a tarde ou de manha ou a noite é bom, mas, não que sejam os melhores textos, meu negócio é a madrugada. Desde criança, e a culpa não é da minha mãe, fui movida a corujas, a livros de cada época e idade, de música boa da mãe e do avô. Fui regada a estrelas e magia, a espiritismo e o sermão de boa menina. Acho que sempre fui boa criança, boa menina e boa mulher espero ser, contudo o que mais me desespera é o medo da manhã. Do sol queimar e eu ter bolhas pelo corpo, marcado pelas conseqüencias do Efeito Estufa.
Cantar. Ser vista, analisada, milimetricamente criticada do fio rebelde à unha por fazer. Assumir a identidade de ser mestiça, baixa, não modelo e aspirante à interpretadora de melodias faz com que minha alto-estima, por incrivel que pareça, se eleve. Não me importa como cantei, como dancei, os tiques nervosos, os cliques com os olhos, como as pessoas me olharam, se elas gostaram, o importante é eu fazer para mim, para eu me sentir grande, modelo, ídola, fã de mim mesma. Egoísmo? Egocentrismo? Não. Um jeito que encontrei de não cair na primeira valeta da vida, de ser eu mesma e não ligar para as críticas não construtivas. 
Se não fosse a minha vontade de manter experiências legais, desafiadoras e animadas não faria nem a metade do que já fiz: não beijaria, não colocaria aquela blusa que só eu acho bonita, não amaria com a intensiadade que sou acostumada a amar, não almejaria aquela vaga tão disputada no emprego, não colocaria um salto XV e não aprenderia com todas as forças a usá-lo. A minha sede de amor e destilados mantém o que vive e pulsa dentro de mim. 
Meu sonho excêntrico é comprar uma kombi, pintá-la de rosa e roxo, juntar as melhores amigas, formar um grupo musical - seja lá o que for - e beber da água da inspiração e da vida. Às vezes, abomino os terninhos comportados e cabelos escovados, quero sorrir como quem sorri para uma platéia agradecendo a cada novo show a beleza de confiar em si mesma.  E nesse show da vida, mesmo não sendo numa kombi rosa cheia de amigas, tudo roda em torno de mim mesma e a confiança que vem de dentro pra fora se torna essencial nessa luta de andar sobre a margem da valeta ou subir para mais um degrau cheio de olhares surpeficiais, afinal o equilíbrio entre o show e o sonho é simplesmente a andança, vestida de calça social e scarpin, bela, linda e sonhadora.

Delícia

  • Nov. 8th, 2007 at 10:26 AM

Gosto tanto do seu cheiro cítrico meio adocicado, da sua pele de homem que me envolve para me tornar mais mulher. Gosto dessa nossa vida planejada minuciosamente e cheia de brincadeiras e rodas gigantes. Somos tão pequenos diante do nosso futuro, mas qualquer serenata nos torna imensos e eternos. 
Deitados olhando para o teto, com as minhas mãos apertadas pelas suas, vi meus 20 anos passarem, desde a época de criança, na qual quem apertava minha mão assim para atravessar a rua era meu pai. E minha mãe dizia: não rebola muito pra andar, menina, é feio; eu sempre espalhafatosa ia com minha sainha vermelha, imitando a chapeuzinho vermelho na floresta urbana.
Sempre fui muito urbana, de ter Mc Donalds e parque de diversões bem pertinho, mas gosto de me retirar pelo campo e pisar na terra, pensar no que fiz e o que farei dos meus dias joviais e com compromissos e responsabilidades gradativas. Penso em casar e em ter filhos antes dos 30, mas 10 anos parece tão pouco; ainda pareço uma criança rebolando nas ruas, só que agora com salto alto e com pressa, medo do lobo mau urbano.
Ainda deitados, ouvindo sua respiração forte, acomodo-me em seu peito para ouvir as batidas do seu coração. Acho que você sim me protegerá desse monstro que se chama Futuro. Você abre os olhos e me pergunta de um jeito tão amoroso quais são os pensamentos que me afligem, gosto da sua preocupação e dou risada do seu sorrisinho sonâmbulo.
Dizem que me divirto com muito pouco, mas se eu não risse das coisas bonitas, fofas e engraçadas, o que seria divertido? O medo do lobo mau? O urbanismo avantajado e cinza? O medo da próxima entrevista de emprego? O casamento e gravidez? Prefiro um bom sunday de maracujá com cereja e rezar para você não ficar bravo por eu colocar sorvete no seu nariz. Para depois eu sentir o gosto cítrico e adocicado que me faz sorrir e desejar aquele monstro em minha vida.

Use o coração!

  • Oct. 23rd, 2007 at 11:36 PM

Eu escolhi tudo o que tenho hoje, escolhi meu estilo, meu jeito de pensar, minha mania de me sentir mais gorda do que sou, enfim, escolhi a vida.  A opção é uma dádiva, mulher que não tem opção é infeliz, mesmo aquela mais indecisa. O verde ou o azul? Podemos escolher, mais uma vez, o preto básico, mas ter as outras duas cores nos dá um alívio inexplicável.
Aí eu fico pensando, tantas escolhas devidamente analisadas, porém com conseqüências desastrosas e outras feitas por mero impulso feminino, as quais resultam em felicidade, mesmo que momentânea. Um exemplo simples disso é quando chego a uma confeitaria e olho aquela pratileira dos sonhos: sonhos, quindins, bombas de chocolate com morango..., eu sei que amo quindim, mas nunca o compro, por quê? Não sei. Simplesmente escolho o sonho de goiabada ou o mousse de maracujá, a sensação é ótima, no entanto o quindim faz falta. Refleti agora quantos anos que eu não escolho o quindim, o amarelinho que já me causou tanto orgasmo gástrico. As escolhas são assim, o impulso às vezes me comanda.
Ok. Exemplo idiota e sem sentido. Vou pensar em algo longe de doces.
O amor. Ah, esse todos nós entendemos. 
Quantas vezes já nos deparamos em escolher ou ser escolhida. Em optar pela incerteza ou pelo caminho mais racional. Escolher o grande amor da sua vida parece uma tarefa para legítimos poetas e especialistas em sentimentalismo. Temos a opção. Quantas chances nos escaparam por causa de outras opções que pararam em nosso caminho. Viver e amar são complementares e quem nega isso  vai contra o seu amor próprio. Mesmo que você escolha somente o si mesmo, é uma forma, talvez a mais autêntica, de amor; a maneira como optará pelo "como fazer" vai do coração e da razão.
No fundo eu acho que, na maioria das vezes, o tal escolher vem lá do fundo. Achar o amor é uma questão de, como disse Shakespeare, cuidar do seu jardim e não esperar que alguém lhe traga flores. Não escolhemos o dia de recebê-las, mas podemos fazer com que isso aconteça. (E talvez eu não goste tanto de quindim quanto eu pensava.)

Quinta-feira

  • Oct. 18th, 2007 at 9:21 PM

Hoje o dia foi estranho, eu estou estranha, tudo foi estranhíssimo. O olho não abriu direito e ficou assim até as 10 da manhã porque a dor no corpo não me deixava levantar, o ritual matinal rotineiro foi mais lerdo que de costume e assustou até a caneca nova porque demorei mil segundos para por leite nela. O almoço foi rápido e cheio de nóias, porque o limão do peixe se ficasse na minha mão poderia causar uma bolha do tamanho do Maracanã quando eu saísse no sol. (Falando em Maracanã, o que foi aquele frango do goleiro do Equador ontem, gente?) Tinha que ter estudado, eu devia estar estudando, mas a preguiça ou sei lá o que tenho hoje, não me deixa! Eu não me deixo fazer nada, nem comprar pão ali do lado eu fui... Fui para o estágio quase carregada pelos anjos da guarda e justo hoje tive que ler uma pilha de coisas... Ô dia ruim do Diabo!
A volta foi uma alegria, ainda mais decorada com o céu nublado e o vento no rosto, adoro não ter que passar quilos de protetor solar, porque o sol aqui é de causar câncer! O motorista do ônibus, sempre simpático, hoje não me deu boa tarde! Pensei: agora só falta cair o mundo em chuva e eu com o tênis branco que lavei ontem! Não choveu, mas carreguei o guarda chuva pela faculdade. Acho que sou prevenida demais...
O mau-estar não passou, ou passou, sei lá. Estou meio sem sentir nada, sabe? Anestesiada.
Pensei muito, isso sim. Pensei nas minhas escolhas, nas expectativas, no estudo de agora que provavelmente será fracassado, pois o peso nos meus olhos assustam minha caneca que está lá na pia. 
Queria um abraço, uma gargalhada, um olhar de cumplicidade, um lanche bem gostoso... Não, hoje não posso, hoje é quinta e não sexta. Amanhã será sexta e tenho a prova que todo mundo treme, acho que até os estilistas da professora (Ai, maldade boa!). 
Chego em casa e fico nessa internet inútil, mesmo tendo um livro chato pra ler e outros três que são minha meta para os próximos 2 meses... Não estou com vontade nem de levantar da cadeira e puxar a mesa mais perto, nem mesmo de fazer xixi, nem de abrir a boca para bocejar.
Tomara que o efeito dessa anestesia passe logo, tenho tanto pra fazer, tanto pra escrever e não me sai nada. No banho pensei em tantos assuntos, até na fidelidade partidária, mas não escrevo sobre ela, não hoje, porque o professor de constitucional falou sobre ela na aula, agora pouco, e seria quase um plágio.
Menti quando disse que não sinto nada, na verdade, estou com uma puta saudade do cheiro dele e de ficar em cima do seu corpo como se fosse um colcão quente, mas com sentimentos, ele sim me daria um abraço, um olhar e até um lanche. Mas hoje não. Hoje é quinta e não sexta. 
Ô quinta ruim do Diabo!

Pra você, meu amor!

  • Oct. 10th, 2007 at 5:23 PM

O brilho nos seus olhos e calor das suas mãos diante do nervosismo daquela surpresa que estava por vir era o que me fazia sorrir e achá-lo a pessoa mais incrível do mundo. O seu sorriso era ansioso, feliz e apaixonado e eu pensei quanto tempo passei esperando por aquilo, pelo romantismo desenfreado, pelo amor amigo e sincero. Naquela data nada ia dar errado, nada estaria fora dos eixos, não naquela noite. O vinho e a comida foram servidos, a sobremesa também, os olhares e o aperto das mãos traduziam o que nós, de frente um para o outro, estávamos sentindo: um sonho romântico, idealizado por muitos, sendo realizado num lugar e num momento maravilhoso.
Nunca vou me esquecer do seu suor nas mãos, você movimentou todo o restaurante para dar certo, tudo do jeito que você planejou, e na hora da grande surpresa senti você tremer ao me abraçar e sorrir timidamente com os olhos úmidos e felizes. Sempre reparo em seus olhos, eles revelam muito mais que você imagina!
Obrigada pelo jantar a luz de velas, nesses meus vinte anos, pelo buquet de rosas vermelhas, pelo final de semana mais lindo que já tive, pelas suas palavras macias e minimamente arquitetadas para o meu bem. 
Amo você, não só pelo que me faz por mim, mas pela pessoa que você me faz ser, alguém melhor, alguém exageradamente romântica e feliz. 

(Pra você escreveria páginas e páginas de sentimentalismo, mas prefiro lhe escrever em papel, para que possa guardá-las para sempre.)

Os primatas que me desculpem...

  • Oct. 5th, 2007 at 11:56 AM

Almoçar sozinha nunca foi meu programa favorito, gosto de comer e falar, comer e falar muito por sinal. Mas já que não tinha com quem falar, o jeito era escutar o barulho alheio. 
Na mesa ao lado, sentaram-se quatro grandões, fortes, bonitos, aí pensei: vamos ver o que sai de bom na conversa, né? Como uma espiã, disfarçada de sonsa, eu comecei a investigar aquele mundo de músculos e testosterona. 
"A mina era uma gostosa, nos trancamos no quarto e fizemos de tudo, hoje ela veio falar comigo, mas sabe como é, né cara? Nem to afim de nada sério, foi só uma noite e ela tem que entender isso."
"É verdade, se ela não entender é uma burra."
"Ou uma puta mesmo!"
Risos.
O mundo é cruel, por um momento eu pensei na menina, imaginei como ela seria, se estaria bem ou não, se entendeu mesmo o que nenhuma mulher aguenta: ser dispensada, usada e virar apenas assunto de almoço. Se ela também queria isso, tudo bem, mas pelo jeito que ele comenta não parece que ela foi atrás dele pra continuar uma ilusão? 
Fiquei meio envergonhada, porque não contive minha cara de indignação diante daqueles marmanjos de regatas se achando os boys comedores de minas e arroz, feijão. Levantei e fui pegar mais suco. Sentei novamente e os quatro pareciam estar em outro assunto, a curiosidade para saber aquele repertório aumentava.
"O coringão vai jogar? Então vamos assistir todos la na casa do Nandão!"
"E ai dos bambis que entrarem na jogada..."
"É isso aí! Nem vem que não tem pros gaviões."
"Você vai comer esse macarrão?" ...
Perdi o apetite. Tudo bem que não precisava falar sobre Sócrates, nem sobre os osteoblastos ou o universo marinho, mas o que me chamou a atenção foi os aumentativos. Eu admito que as mulheres gostam do diminutivo, é um fofinho pra lá, um bonitinho pra cá, um amorzinho. Falamos de novela, roupas, sapatos, até ai tudo bem. Estão no direito deles.
Uma menina bonita chega, diz oi e sai sem nem olhar muito.
"Essa aí que eu falei..."
"Essa??? Mas ela é uma gostosa!"
"Ih, já vi uns caras com ela numas cervejadas."
"É, eu também, mas fez certo você, bobeou, rebolou."
Risos e mais risos. Eles fazem um cumprimento dos machos e enchem a boca de bife.
Uns insensíveis. Ai, minha vontade era gritar pra eles: Por que vocês não viram adultos? Mas aí que pensei: hoje a população de velhos tarados está maior e eles só seriam mais quatro nesse mundo.
Um deles levanta, demora um pouco e rindo começa:
"Fui falar com a Carol, meu, ela é uma gata..."
"Mas foi falar o quê?"
"Fui chamar ela pra ir lá em casa assistir um filme"
"E ela?"
"Disse que não, que vai ficar estudando, é uma metida."
"Ah é mesmo, tinha que aceitar o convite, pô!"
"Mas também, nunca mais chamo ela pra fazer nada."
"Só."
Não aguentei mais, minha pesquisa foi num ambiente de descontração, mas isso já é demais. O engraçado é que na mesa do outro lado dois rapazes conversavam sobre emprego, futuro, carreira. Riam também, saudável papo, sem aumentativos, sem putas, sem 'cara'. 
Saí dali pensando quantas outras já não viraram assunto de almoço, e talvez no passado até eu! Não quero pensar mais nisso, eles que vivam bem com o coringão, as regatas e as massas corporais.
Acho que sou romântica demais, talvez até meio conservadora, não tenho abundância de colágeno, mas que me desculpem, personalidade é fundamental.

Monólogo

  • Sep. 26th, 2007 at 10:29 PM

_Tudo que é proibido é mais gostoso, disse pra si mesma. 
_Já começou errado, respondeu sua consciência num momento de seriedade, mas pensando bem, completou, é só um.
É difícil controlar a mente feminina, cheia de impulsos e ansiedade. Um final de semana planejado e pronto, lá estamos nós sonhando com o vestido, o perfume, o sapato que usará. A camisola, o toque especial, a surpresa que não pode faltar. Até a maquiagem pra combinar, ver se tem dinheiro, economizar. Tudo em volta daquele dia, daquela idéia de perfeição. 
_Eu tenho que estar linda, cheirosa e perfeita, disse. 
_Mas pra você mesma, completou a auto estima. 
_Claro, respondeu num tom de ironia. 
...(Claro que não.) 
_Bééé, errado de novo. 
Ela sabe, ela inspira confiança e expira dúvidas. 
_Ok, eu vivo pra mim e somente pra mim. 
_Ninguém vive somente pra si, isso é egoísmo. 
_Então o que seria o ideal? Vivermos para nós e para os outros na mesma proporção? 
_Não. Pensar nos outros e fazer o bem para nos mesmas este é o caminho. 
Porém, somos extremistas. Infelizmente.
Ela entrou no banho, não sabia mais o que pensar, mas ainda estaria linda para o final de semana na fazenda e para o jantar a luz de velas. Ela não chora mais sentada embaixo daquelas chibatadas por ter feito algo que não deveria fazer, ou que deveria ter feito. Não se lembrava mais da dor de ser esquecida, de ser iludida, ela sabia o que estava fazendo, mas ela não queria saber que aquilo fazia mal, o próprio consciente proibia. 
_Eu sei de tudo isso. Eu me conheço, às vezes sou intolerante, outras sou calma até demais. Personalidade forte, mas chorona ao extremo. Cresci e não cresci, entende?
_Não. 
_Eu também não. Penso estar em um mundo de flashes, onde os outros se refletem e brilham muito mais do que eu. Eu sou a foto preta e branca, esquecida no fundo da minha própria gaveta, enquanto todos brilham numa tela pintada pelo mais dedicado artista.
_Mas, às vezes aquela foto é restaurada, quem não gosta de lembranças felizes? Você é feliz!
_Sim, agora sou.
Ela, já de camisola, não entende como e nem quando aquela conversa começou, mas que ela a entendia, naquele segundo de pleno silêncio. 
_Você ainda está aí?
_Sim, estou pensando numas coisas.
_No quê?
_Nas coisas que comecei e não terminei, nos momentos em que fiz acontecer, mas não era correspondida, na minha estranha admiração por olhos e pintas em lugares estratégicos, nas pessoas que conheci e que hoje nossos caminhos já não se cruzam mais...
_Pára de ser nostalgica um minuto, por favor?!
Tudo a corroía, fazia arder, como o sol quente e a queimadura de sempre na praia. O mau humor repentino e o desejo de ser o que não é, porém somente por fora, por dentro ela até que estava satisfeita.
_Ah, essas suas idéias me fazem quase chorar...
_Minhas? 
_É, esses seus impulsos delirantes, as suas nóias depressivamente tristes e sua alegria contagiante, enjoa.
_Então por que não se muda? Procura outra mulher, uma que seja perfeita, com coxas mais duras, com cabelos mais cheirosos, com o rosto mais fino, com a bunda mais arrebitada, com os olhos mais claros e a consciência numa calmaria.
_Não procuro, porque eu gosto é desses seus chiliques, desse seu outro lado revolucionário e cantor, artístico, sedutor e não dessa sua mente 'tpmica'...
Ela senta, num movimento só. Ela gostava de ser assim, revolucionária, indignada, estudante de direito. Abre a geladeira e nada vê. Abre o armário, havia algo proibido ali.
_Não, de novo não. Você prometeu...
_Ah, tudo que é proibido é mais gostoso...
_Ih, continua errado... mas tudo bem, só mais outro chocolate.

Borboleta

  • Sep. 15th, 2007 at 12:25 AM

Isto não é dor intensa, é apenas um incômodo na garganta. Não são lágrimas de tristeza, é carência de pai e mãe. Mas ainda dói, por um milésimo de segundo. Afinal que ser humano não sente uma pontada no coração e pensa estar relacionado com a felicidade? Pode estar mesmo... A correria de uma vida de gente grande atrasa a hora marcada para consultar meu ego e perguntar se ele está bem. Acho que está, tem de estar...
O mundo gira a nossa volta e pensamos se vamos atravessar a rua em segurança. Quantos motivos tolos colocamos num plano sem fundo colorido e fazemos deles arco-íris? É a capacidade de ver a esperança em um minusculo pedaço de papel, ou melhor, numa pequena frase de amor, dita na despedida, mostrando-se soberana num até breve . 
As coisas acontecem como tem que acontecer, mas se elas são para acontecer, para que planejar tanto? Um plano colorido é o sonho de qualquer um, um sonho colorido também. Quando eu olhar para trás, sei que arrependimento não haverá, pelo menos não daqueles que nos descabelam e nos fazem perder o sono, no entanto, sonhar com coisas intensas e sem sentido se torna rotineiro, mas ainda em preto e branco. Não sei, exatamente, se meus sonhos são sem cores, embora não me lembre de nenhum tom que me deixasse satisfeita com eles.
Quando virar gente grande de verdade, quero ser como sou agora, numa paisagem, cada dia mais livre e precisando ficar menos sozinha. Ter responsabilidades demais amadurece, mas também aborrece o ego. Faz tempo que ele não se manifesta, está entediado de tanta camiseta e calça jeans, passos apressados e dores nas pernas, cansaço e estudo. A tosse aperta, a responsabilidade aumenta, eu não cresço mais, porém ainda tenho muito o que crescer, trabalhar, casar, ter filhos, sucesso, saúde, amém.
Acho que meu ego está em greve, mas ainda vive, como todo grevista.
Estar num gira-gira veloz seria mais vantajoso? Acho que não. Prefiro ser essa metamorfose ambulante...

Confuso

  • Sep. 1st, 2007 at 11:46 PM

De onde vem aquele aperto que nos sufoca até excretarmos as mais puras gotas de sal que podemos tirar de la de dentro? De onde vem a calma e o sossego de uma inquietação quase idiota e sem sentido? De onde vem o raciocínio diante de um ciúme reprimido pelos direitos iguais? Da onde vem meu mau humor depois de brincar de 'bicho bebe' com os melhores companheiros de faculdade?
É, a sensibilidade humana explode pelos poros nesses momentos, a amiga aguenta o injustificado lamento, a tevê queima e me deixa sem prosa barata, as músicas enjoaram os tímpanos, mas ainda são necessárias... "E agora, José?"
Os amigos saíram e você não, porque a consciência disse "você tem que estudar". A mão está no lado esquerdo do peito, mesmo esquecendo a canção. E as lágrimas contidas, pra não se mostrar contraditória.
Ah esse amor, ele sim é contraditório. A realidade esbarra em tudo e em todos, mas o amor continua lá, no entanto se a emoção comanda o batalhão de pensamentos, pronto, lá se foi ele dançando por aí ao som de alguma bandinha. Às vezes sou sem sentido. É a tal inquietação.
Ontem várias pessoas doloridas compunham o ambiente baladeiro, eu estava com meus amigos, elas também; eu estava feliz, elas não sei. A menina ali da frente desceu com seu salto alto e encontrou aquele moreno, mesmo sabendo que amanhã não o encontrará, talvez até quando ele quiser. O camarada ficou bêbado e lamentou a perda da amada, mas está ali vivendo o real e doloroso "fora" da modernidade. O segurança ainda pensa que somos crianças, desde que com 14 anos íamos pra balada, e pensávamos ter cara de 19. Hoje temos 19 e pensamos ter cara de 16, não aparento ter a idade que tenho, eu acho.
A discordância é algo que compõe meu hall de palavras soltas e o conjunto delas,é o que faz o meu pensamento, eu não escrevo pensando no que escrever, eu escrevo pensando em não escrever tudo o que penso. A maioria está aqui, exposto, mas no âmago está o climax do que seria somente eu, um egoísmo profano, sem limites.
Esse mundo de hoje não é somente ilusão, maravilha e eu sei muito bem disso, quem acha que não tenho cicatrizes suficientes pode ver nos meus joelhos as quedas humilhantes diante daqueles porcos insignificantes e daquelas críticas não construtivas e propositalmente enfiadas no meu peito. Ainda ajoelho, não diante de ninguém, mas diante de mim mesma, somente. Meus impulsos continuam fortes, mas minhas pernas mais ainda. Que venha o que tem que vir, a obrigação do momento é viver, mesmo que isso cause ciúmes, mau humor, calma e lágrimas ao mesmo tempo. Ô realidade doce, que nos amarga a noite e nos faz deitar com leveza de que os direitos iguais devem prevalecer, mesmo ligando pra ele a cada cinco minutos.

À meia luz

  • Aug. 28th, 2007 at 12:07 PM

Por incrível que pareça tudo faz sentido. Pode ser a direção que tomamos, a escolha que fazemos, a pessoa que convivemos, até a comida que saboreamos porque estávamos morrendo de fome. Tudo é parte de um sistema nosso, inventado, opaco. E por que não pensar naquele animalzinho que passou na nossa frente correndo, brincando consigo mesmo e que fez sair o suspiro de felicidade e contentamento, talvez o único da manhã? É, um pequeno sentido sempre faz.
Quem acha que a vida não tem nenhum sentido , tem algumas partes mortas no corpo, como por exemplo o coração. Ser cético demais, ser racional demais pode fazer muito mal à saúde. Sonhar e acreditar em utopias pode ser a cura para aquela dor de cabeça que tanto incomoda ou para o sono que não vem. 
Essa noite sonhei com coisas que antes eram utópicas pra ciência, sonhei com o clone da minha cachorra [aquela do outro texto], sim, acordei chorando, mas foi um sonho tão bom por uns momentos, fazer acontecer, abraçá-la novamente é o que me deu força e o que fechou, mais um pouco, a ferida de saudade aqui de dentro. Segurei-a nos braços com tanta paixão que lembro de cada detalhe do seu olhar, era o clone, mas no fundo era ela. Quando abri os olhos para a realidade, a primeira coisa que vi foram os olhos dela, as pupilas não se mexiam, mas as minhas sim. 
O que me faz sorrir não é a convicção de que recordações fazem parte, mas é o tempo em que elas duram. Frações de segundo, dias, semanas, vidas inteiras, uma saudade, uma dor, uma lágrima. Pode ser abstrato demais, mas faz sentido. Sem elas quem viveria em paz? Quem sonharia com aquele momento mais feliz, quem lembraria com ternura as rodinhas de ciranda e o primeiro beijo da sua vida? Quem realmente viveria? Os mortos de coração? Não. São os meio termo, os humanos de verdade, os fortes e fracos, os racionais e os sentimentais, eu e você. 
Meu olhar foca a pupila dela novamente, no fundo eu me vejo com uma máquina fotográfica na mão, já não me dói tanto, apenas fica a lágrima, contida, e o suspiro embassa o vidro. A foto é a a saudade emoldurada, a coisa vivida, o amor embalado, para sempre.  
Tenho que sair com ela por uns segundos, num cochilo, talvez.