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I miss you

Todos os dias repito o tamanho da minha saudade, ela não caberia numa capital, nem em um caderno de 1000 páginas, ela não caberia no espaço de tempo que esperamos para nos encontrar, nem no maior oceano do planeta. Ela invade todo o meu ser e se manifesta das formas mais lindas e imprevisíveis, na cor do meu esmalte, do sorriso de bom dia, no alô do telefonema, na dor de estar longe, na lágrima que insiste em cair todos os dias antes de dormir.
O lado esquerdo da cama é frio sem você aqui e eu espero os 30 dias passarem e despetalo meu coração com filmes e canções de amor, na esperança de sentir que de certa forma tudo isso é uma coerência romântica e bonita demais. No entanto, dizer que estou anestesiada nesse mês, que não sinto o seu cheiro no meu travesseiro e nem acordo com medo de olhar para o seu lado é mentira.
O tamanho da minha saudade é o conjunto dos dias do nosso namoro, multiplicado pelas vezes em que digo o quanto eu amo você. Ela não caberia na lua, nas nuvens, mas cabe no meu coração e disso eu tenho certeza.
Frustrações à parte... estou indo bem, na direção que eu queria ir, que meu coração mandara, mas na velocidade errada. Há tantas horas no meu dia e tantos anos na minha semana. Parece que o tom da canção está errado, que o verde da grama está opaco e que o caos permanece intacto. Sorrisos em câmera lenta, abraços tardes demais, canções que fazem chorar. Estar desprotegida de todos e ouvir cada vírgula, num desesperado ato de se ter, de ter o outro, de não se sentir sozinha, de não chorar por besteira e não encher o saco das pessoas com lamúrias. Ouvir-se fraca, longe de si mesma. Sentir-se branca, pálida.

Pode achar que me conhece por dentro, mas, afinal, toda carne viva não é igual?

This is Love

Nos entregamos ao provável, ao discutível, ao remediável amor. Nós entendemos que o excesso prejudica e a falta nos afasta, que a união em alguns dos nossos dias é a briga e nos outros a calma, que suficiente é estar juntos, mas sem estagnar, que estar juntos pode ser estar longe, mas sem muito tempo nesse espaço físico, que amor se espera e se entrega e que não há nada que possamos fazer a não ser amar.  O cheiro, a razão, a comida, o prazer, a emoção, o calor, as mãos, tudo em sintonia, ou não. Às vezes é bom não ter sintonia, não viver como dois acordes na mesma cifra, é bom ter asas de tamanhos diferentes e horizontes de outras cores. É bom estar em turbulência, mas só às vezes. O que eu quero? Em palavras não consigo definir, mas em sentimentos eu posso desaparecer diante de uma muralha de emoções, de ideias, de paixão, de melancolia, de amor. Já disseram que nossas dúvidas são traidoras, as minhas são realistas demais e teimosas. Não aceitam como resposta aquilo que não querem ouvir, mas exigem a verdade. Numa coisa elas acertaram: sozinhos não há ninguém e juntos somos um. É difícil fazer as contas do tempo e do espaço entre nós e eu sei que muita coisa vai acontecer, mas nesse tempo e espaço eu só tenho certeza de uma coisa: podemos brigar ao sair de casa, mas fazemos as pazes no elevador.

Desespero

E o amor me olha, abandonado lá fora, na chuva, no vendaval
Olha como se fosse cachorro perdido e pede sorrindo uma chance, afinal.
O amor range os dentes no frio, bate no vidro da janela e manda bilhete debaixo da porta,
Olhei de canto de olho, a lágrima caiu num choro que vem por bem e por mal.
Não há nexo nesse enredo, nem palavras para descrever a dor aqui no peito,
A saudade aperta e a invisível capa dolorida cai no quintal.

Saio quando o amor está dormindo, abraço-o quietinho para que sinta bem,
Coloco-o no cobertor, choro pelos cantos do muro e volto para me proteger,
Olho pela janela e me sinto pior, tanta dor no coração de quem ama,
A vontade de trazê-lo para dentro do meu peito e pedir para renascer,
Tento, brigo, grito, o desespero traz inconformismo, traz desesperança,
Mas amor ainda tem que aprender a suportar o frio, para reanimar lembranças.

Não cabe num poema

Está rasgando, sangrando, corroendo. Mutilado, desarmado coração. Alma dolorida da surra da razão, da defesa do amor, da infelicidade do cotidiano, das desculpas mal contadas, dos textos não terminados, da lágrima que rasga a face, do coração despadaçado. Poesia simples e pobre de uma história tão rica e bonita, que se esforça para o vento não levar. Nada posso fazer se a chuva cai e eu ouço os gritos de desespero do amor bem contado, do amor mais bonito, do amor mais fotografado. Letra, verso, frase, sílabas escorrem entre os dedos, ao som de Maria Rita e o medo de ficar sozinha. Medo desgraçado, medo enraizado, medo mal tratado. Não ensinei minhas cordas vocais a esquecerem nossas falas, não ensinei o meu adeus a não voltar, ensinei meu coração a perdoar, a relevar, à alma a se controlar dentro de si, à lágrima a não escorrer e se debater dentro tudo que é interno. Coração cansado, amargurado, desconfiado que ao por-do-sol as dúvidas ressurgem, renascem numa dor inexplicável, 'sobrou meu velho vício de sonhar, pular de precipício em precipício, pagar pra ver o invisível e depois enxergar' que a atitude é inevitável, a confiança foi embora e deixou um rastro de sangue derramado das lutas, das brigas intermináveis. São muitos pontos nessa história, são muitos verbos nessas frases e ser infantil não é mais uma desculpa. As partes que conectavam o livro desapareceram numa frase apagada, num batom borrado, numa cadeira vazia. O que era dor virou pesadelo e dele se fez água com sal, pois, depois de muita luta, me sinto novamente como uma imbecil... 'repetindo repetindo como um disco riscado, relembrando reabrindo a mesma velha ferida'.

Arrependimento

Seu silêncio faz o mundo girar, faz refletir, faz sofrer. Seu arrependimento pelo inevitável é culpa vã e sem orientação de suas ações e os caminhos seguem, em silêncio. É sofrimento, ilusão, agonia. É tudo e é nada. Perfeita indecisão vaza entre os dedos, os olhos vendados de amor, o coração com armadilhas de aço... Você tem medo do agora, pois o passado foi cruel, foi direto, foi na boca do estômago. Seus olhos embaçados pelas palavras ditas com rancor agora apunhalam e lhe desgraçam a alma. É triste seu andar de menina que descobriu a morte, que descobriu a ilusão, que descobriu a culpa. Tudo ao teu redor é cansado, tudo é lama, tudo é pesado... Pesado demais para ombros de menina, leves para passos de mulher. Impressiona quem a vê caminhando, sorriso nos lábios, sadia e confiante, quem não a conhece são seus próprios pensamentos que de uma maneira vaga e sem licença invade seu ser, sua culpa, seu estômago. Não dá para apagar, para calar, não dá para aguentar, é como se a própria dor tomasse forma e abocanhasse seus olhos. São as lágrimas que a fazem sorrir, num paradoxo imbecil. É o aperto no peito que a faz amar, pois tem medo. Simples medo, que a impede de caminhar sem pensar no espelho, sem pensar na imagem de seus pais, sem pensar na decepção. É incrível a autopiedade que ronda seus pés, o calcanhar tímido que pisa inseguro. Nada mais importa, hoje. O que realmente importa dentro desse nada é amor.  Aquele amor dos poetas, o amor da prosa, o amor da psicologia, o de todo dia, o de dentro. Nada importa, reformula a frase, se não há amor. Mas não se pode quebrar o espelho, não se pode ter autopiedade, não pode decepcionar, é o grito dado com a cabeça no travesseiro que a libertou e aprisionou e fez sofrer quem mais ama, com palavras destemidas e inconsequentes. Não basta a dor, não basta o passado... Tudo é solidão no silêncio dos seus passos. Nada mais parece como antes e ela anda sorridente, afinal.

Cansei

Eu estou achando tão difícil esse negócio de viver no mundo real. Antes meus focos, minhas metas pareciam tão ilusórias que em alguns momentos me imaginava em situações imprevisíveis, surreais. Hoje parece que vivo do certo dentro do incerto, do mesmo dentro do diferente, da vida dentro de um script. É dificilimo viver nesse meio de aparências, de alto astral, sinceridade exarcebada e vínculos superficiais. Nunca achei que fosse dizer isso, mas me sinto só. Não externamente, mas inteiramente. Internamente. Solitária como um pássaro sem rumo ou uma criança em seu mundo. É triste pensar que para que as pessoas me olhem com admiração eu preciso ser a melhor ou a mais bonita ou vinte quilos mais magra. O importante nessa vida, para eles, é a pressão externa. É a alavanca que nos impulsiona para... o aborto cerebral. Para o mistério do não acordar e para as pessoas que não queremos ver. Como eu queria, nesse exato momento, me transportar para o mais longe possível de mim mesma. De meus pensamentos fúteis, do objetivo da magreza, da melhor posição no ranking da vida, da superfície da alma. É de pensamentos que me impulsionam e é deles que me vejo fugindo. Quero fugir para onde você não me enxergue, me resgate, me olhe. Quero um lugar ao luar, com vento frio e mar. E só. E mais vento. Eu só.

So easy

__ Você não parecia tão fácil, tão decifrável, tão simples. Você era a mistura de um amor traído com o coração de um leão, adormecido e quieto dentro de uma lareira fria e apagada. Você era simples menina, simples, só isso. Não temia, não amava, não precisava de ninguém e hoje dorme abraçada, amada, decifrada. Tantas conversas poderíamos ter, poderíamos nos amar, simplesmente calar. Simples, é a palavra que te define.

__ Por que ainda me quer? Assim tão nua aos seus olhos quentes? Por que ainda pensa em mim como a menina se o leão já acordou e acendeu a lareira apagada? Não tenha medo, apenas escute. É o som dos nossos ruídos de abraços, dos nossos laços invisíveis, nos nossos olhares expressivos e sentimentos recíprocos. Não quero te julgar por me amar ou me fazer feliz, mas você me decifrou, me tirou das amarras da quietude e me trouxe complicada, porém simples. Sou decifrável, como já disse, mas não pelo seu olhar, e sim pela minha voz. Entrego-me ao teu julgamento de quem nunca me condenará. Assim eu penso. Entrego o jeito dos meus ruídos, a voz que te afaga e te põe em alerta. Sei que sou extremista, mas não insegura, e te asseguro, meu bem, a simplicidade não está no jeito, está na mudança pra melhor.

"Você me parecia tão bem..."

Parar de escrever acho que foi um dos motivos para a minha solidão interna, tenho meu namorado, minha família, amigos, melhores amigas, colegas, conhecidos, pessoas, desconhecidos, mas algo faltava. Até que achei um papelzinho com o login desse blog e foi tão curioso que fiquei olhando para aquela cor de caneta e pensado como meu mundo mudou depois que parei de escrever. Minha vida estava tão ctrl c + ctrl v, tão automática que ligar o computador não era mais uma libertação, era rotina.
Algo faltava como as amigas que estão longe, a cachorrinha que faleceu, o colo de pai e mãe, a comida da avó, o latido do cachorro, o sorriso do irmão, algo faltava, as teclas, a caneta, o papel... a folha, a página em branco.
E antes que viesse um segundo pensamento contradizendo o que elencava como escasso, abri essa página e joguei toda a solidão, a saudade, a ausência. Não adiantou, porque ainda não sabia o que era o buraco no peito, a indolor causa da minha agonia. Era confessar, me confessar para mim mesma. Num redundismo irritante e frenético, filtrado por vírgulas e barulhinhos de backspace. 
É libertador, enfim, todas as amigas me ajudando, conversando depois de um dia nada difícil. A cura para a doença veio, as dores passaram, o amor reinou, a saudade quietou, o coração disparou e desabafei o inevitável: escrever é oxigênio, é paz, sou eu.

'Tell me that you need me'

A vontade de escrever é tanta que mal me aguento, mas não sei como transformar dor em palavras. A vontade de chorar é tamanha que não me suporto, choro e suplico para parar.

É difícil acreditar que acabou, que virou história, que não posso mais ligar no meio da tarde e contar o pensamento mais bobo que me veio à cabeça ou no meio da noite e contar o pesadelo, nem a música que estou ouvindo ou a matéria que estou estudando, nem o pássaro que pousou na minha janela, nem a dor que me sufoca e me faz triste. É tão complicado a gente achar que vai controlar com sabedoria nossos sentimentos quando a hora chegar, mas não, a gente cai em queda livre e se quebra no chão frio e úmido de um banheiro.

Se você soubesse como me faz falta o seu olhar verde e carinhoso, sua pintinha amarela no meio do olho, seu cheiro cítrico, seu abraço acolhedor, sua gargalhada única e sua mania de me chamar de 'bobinha'. Faz falta, dói, corrói, mas é preciso aguentar. Não há alternativa.

Eu poderia correr até aí e te jogar na parede e mostrar o quanto eu te amo, eu poderia gritar tanto que você, há mais de 200km, ouviria, eu poderia chorar até você voltar, mas não adiantaria. Nosso pacto eu tenho que cumprir e aceitar. Você merece o que me pediu, mas eu não mereço tanta dor.

Não se assuste com esse texto, é minha forma de espantar os fantasmas do meu travesseiro, as formigas que andam em meu estômago e a agulha que espeta minha cabeça pedindo pra eu não desistir, e não vou. Só a gente se entende e se desentende, não adianta negar. Não adianta clamar, nem cair, nem chorar, mas é tudo o que sinto vontade de fazer.

Ó menina boba, bobinha, com coração demais pra doer, com esperanças talvez inúteis e correndo o risco de ficar assim, durante um bom tempo, durante agosto, setembro, durante horas a fio... E não pensar se torna um desafio, e não escrever aquela imensa carta e entregar o seu presente de Natal também...

É difícil. Atravessar agosto vai dar desgosto, mas é preciso chorar menos, rezar mais, ir levando e, no meu caso, cantar, pois aí, talvez, a tristeza fica pra lá.



"Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu - sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados. Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques - tudo isso ajuda a atravessar agosto."

Caio Fernando Abreu

Paraíso sem cor

Deixei as lantejoulas de lado e fui brincar de ser opaca. Minha saia rodada de tule não me serve mais e eu não me importo porque tenho a fantasia de gente-grande pra vestir. Meu cabelo já não é natural, meus olhos não são mais sonhadores e peco pelo excesso de realismo. Dá vontade de dizer ao mundo pra parar de querer idealizar e simplesmente viver.

Ademais, os degraus da vida são muito altos para essas pernas, os sons são baixos demais para quem não quer ouvir, e dormir sozinha deixa de ser libertador e começa a ser um tormento. Respiração alheia faz bem ao coração. Principalmente quando os movimentos são simultâneos, as falas inconscientes se completam e, quando o pesadelo bate à porta, você está com seu manto protetor. Acordo e ele surge. E eu corro para resgatar as lantejoulas, começo a idealizar um universo de possibilidades e me emociono ao sentir o romantismo.

Ele acorda com o meu sorriso e implora para deixar a preguiça reinar. Eu cedo aos seus pedidos, como sempre. Olho no fundo daquele fundo verde e mal posso esperar para respirarmos novamente, no mesmo ritmo... Os olhos se enchem de lágrima e eu não sinto falta da fantasia já tirada. Arranco minhas preocupações já costuradas e deixo buraquinhos, que logo vão fechar. Logo, logo...

Pisco. E ele não some. Com certeza não é sonho, não é imaginação. Mas me lembro que ainda é quarta-feira e ele só chega daqui dois dias! Pisco, ele desaparece. Volto a despir-me de lantejoulas e preparo-me para aquela fisgada no peito que já se tornou 'de casa'. Dói, mas ser opaca também é viver, não?

Quando parei por um minuto...

... percebi que me faltava um braço, uma perna, um sentimento, um não-sei-o-quê!? Faltou-me a esperança de reviver cada dia na memória e lembrar o quão feliz eu era por ser despreocupada. Ai, preocupação... por que me invade assim, sem pedir licença, sem autorização ou alvará? Como pode se alojar em minha mente, fazer meus olhos saltarem de medo e sangrarem água e sal? Ai, solidão... que acompanha essa terrível preocupação e me rasga de dentro pra fora como um zíper ao avesso, um sentimento fechado, um coração aberto demais mostrando o que não deveria.

Entro em casa, na espera de sentar e despejar toda minha dor na capa rosa e macia, olho em volta e a minha vida, por um instante, gira em torno do balanço da cortina, pendendo para o meu lado racional de viver sem ilusão. A ilusão da despreocupação. Coisa corriqueira.

Sem importância são meus dias hoje, mas essenciais para o futuro, o amanhã! Quem diz que viver o hoje é suficiente não possui expectativas, e eu mergulho nas minhas como uma criança na piscina de mil litros, achando que aquela sim é a maior piscina do mundo.

São minhas expectativas que tento compartilhar com alguém como você que se mexem pra lá e pra cá, como um pêndulo morto querendo sair daquele vai-e-vem e choacalhar sem pudor. Ô diacho de caminho de pedras, de saudade, de dor. Dor indolor, sabe? Aquela que corrói, se expande, amortece e mata. Dor que machuca a mente e que de tanto pensar fiz buracos fundos em mim, rasguei os jornais que deixei na entrada, joguei um copo pela janela e me fiz de vítima diante de quem feri.

Sai, essa é sua sina. Viver sangrando expectativas e amar criando mares profundos de planos. Vem que minha semana é esperar por aquele abraço, aquele cheiro, aquele conforto de quem sabe o que diz e não repara nas minhas minhocas penduradas pelos buracos da minha mente e sente que preenche o que nunca será completo.

Quando parei por um minuto.

Chame o síndico!

A lantejoula pulou suicidamente do vestido.
A luminária verde saltou na cama depois de um sono profundo no canto da parede.
O edredom fez um ruído de desesperero sonâmbulo.
Os cadernos se abriram num ato impulsivo. 
O telefone ficou mudo.
O apartamento está excentricamente trêmulo (e se auto limpou). 
As unhas queriam ser lixadas, uniformemente, com a faca da cozinha.
O tapete enrugou e chamou os sapatos para junto dele.
O computador abriu essa página para não morrer no soco.
O Suflair foi devorado em um minuto.
O espelho embaçou.
O cabelo foi picotado, as pontas duplas já eram. 
A boca está seca e os dentes cerrados (as mandíbulas nem reclamam).
A janta não esfriou mesmo por meia hora parada no fogão.
Escondi qualquer instrumento mortífero e estou, nesse exato momento, guardando meus pensamento canibais e animalescos dentro da caixa preta que fica em cima do armário alto.
Tudo, agora, se calou.
Corra. 
Grite.
Vá rezar para os antepassados.
Eu estou na ira.
Estou na fúria.
Estou com o meu avesso à mostra. 


Ciúme. 

SOS

Quero viver, ao menos um dia, de cheiro e de canção. Ficar de olhos fechados e sentir o aroma de morango misturado ao seu perfume cítrico; ouvir sua voz embaralhando palavras nos meus cabelos e fazendo rodopios e arrepios em meu pescoço. A saudade sim é dor que não se sente, que desatina sem doer. 
Não desejo ter mais insônias pensando num modo de me sentir menos sozinha, mesmo dentro do coração de algumas pessoas. Não anseio mais pela liberdade solitária de quem canta para ninguém e quem não sente o cheiro de alguém. Não. A repulsa dentro de mim ainda pulsa em ritmo de quatro tempos e pula para fora como lágrimas selvagens e pesadas, a água salgada da menina dos olhos, da menina de dentro, da mulher de fora.
Vem correndo. Manda-me correr para pular em seus braços e você, transbordando saudade, me girar como quem gira uma criança após a volta da viagem. Tira-me dessa ditatura da beleza ideal, do peso ideal, do cabelo ideal, pois os cremes e salões de beleza são mentirosos, nada é por muito tempo, nem eu.
As rugas aqui dentro estão aparecendo, sinto mais calor que antes, os lábios começaram a se abrir por necessidade, é a seca. A falta de um ritmo e de um cheiro é tão intensa que até o chuvisco parece menos sozinho. Um pingo longe do outro, mas não tão longe quanto eu e você, quanto eu e eles, quanto eu e mim.
As lágrimas secam no caminho, pelas rachaduras violentamente sofridas ao longo do final de semana. Gostaria de ouvir o som da sua voz mais de perto e não sentir a minha tão ao longe. Vem. Diz-me quanto tempo faz que não abro o coração para cantar e sentir. Eu sei, não faz muito tempo, afinal, nem faz tanto tempo assim que nos vimos... Mas a falta é seca, é deserto, é sertão. Grande sertão discreto, tão vazio de palavras e sons. Mudo e salgado. 
Ao mesmo tempo caminho cantando, repetindo a canção que lhe enviei hoje para abrir o sorriso que eu não consegui, cheiro de menta, ruídos românticos, tudo que desejo para os próximos dias.

Avante, menina!

Ninguém esperava um texto a essa hora, na verdade, nem eu. Escrever a tarde ou de manha ou a noite é bom, mas, não que sejam os melhores textos, meu negócio é a madrugada. Desde criança, e a culpa não é da minha mãe, fui movida a corujas, a livros de cada época e idade, de música boa da mãe e do avô. Fui regada a estrelas e magia, a espiritismo e o sermão de boa menina. Acho que sempre fui boa criança, boa menina e boa mulher espero ser, contudo o que mais me desespera é o medo da manhã. Do sol queimar e eu ter bolhas pelo corpo, marcado pelas conseqüencias do Efeito Estufa.
Cantar. Ser vista, analisada, milimetricamente criticada do fio rebelde à unha por fazer. Assumir a identidade de ser mestiça, baixa, não modelo e aspirante à interpretadora de melodias faz com que minha alto-estima, por incrivel que pareça, se eleve. Não me importa como cantei, como dancei, os tiques nervosos, os cliques com os olhos, como as pessoas me olharam, se elas gostaram, o importante é eu fazer para mim, para eu me sentir grande, modelo, ídola, fã de mim mesma. Egoísmo? Egocentrismo? Não. Um jeito que encontrei de não cair na primeira valeta da vida, de ser eu mesma e não ligar para as críticas não construtivas. 
Se não fosse a minha vontade de manter experiências legais, desafiadoras e animadas não faria nem a metade do que já fiz: não beijaria, não colocaria aquela blusa que só eu acho bonita, não amaria com a intensiadade que sou acostumada a amar, não almejaria aquela vaga tão disputada no emprego, não colocaria um salto XV e não aprenderia com todas as forças a usá-lo. A minha sede de amor e destilados mantém o que vive e pulsa dentro de mim. 
Meu sonho excêntrico é comprar uma kombi, pintá-la de rosa e roxo, juntar as melhores amigas, formar um grupo musical - seja lá o que for - e beber da água da inspiração e da vida. Às vezes, abomino os terninhos comportados e cabelos escovados, quero sorrir como quem sorri para uma platéia agradecendo a cada novo show a beleza de confiar em si mesma.  E nesse show da vida, mesmo não sendo numa kombi rosa cheia de amigas, tudo roda em torno de mim mesma e a confiança que vem de dentro pra fora se torna essencial nessa luta de andar sobre a margem da valeta ou subir para mais um degrau cheio de olhares surpeficiais, afinal o equilíbrio entre o show e o sonho é simplesmente a andança, vestida de calça social e scarpin, bela, linda e sonhadora.

Cabeça dura, coração mole.

Mestiça japonesa, paranaense, estatura baixa, mas com autoestima, com planos de viajar o mundo, de ser cantora em bares de MPB e dançarina por paixão. Movida a livros, músicas, doces, abraços, conversas e gargalhadas. Acha linda a diversidade nacional e a força de vontade das pessoas de boa fé. Intolerante, impulsiva e explosiva - uma mulher até que normal, com mil projetos a realizar, muito pra sambar e a vida inteira para morrer de amor. Gosta do frio, de edredom, chocolate quente, olhos nos olhos e beijinhos com temperatura e gosto de sorvete. Romântica ao extremo, tem uma coleção de bichos de pelúcia e não nega já namorar o Príncipe Encantado. Não compreende quem desiste sem tentar, quem não ama e quem não é amigo. Saudade é a palavra de todos os dias. Mulher com defeitos escancarados e qualidades tímidas. Um sorriso pode fazê-la feliz à beça.

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